1. UMA VIAGEM A OUTRO MUNDO
  2. Untitled Chapter
Susana Ribeiro & Tiago Pereira

ALDEIA COM WI-FI MAS DESLIGADA DO MUNDO

GRALHEIRA, A PRINCESA DA SERRA DE MONTEMURO

ALDEIA COM WI-FI MAS DESLIGADA DO MUNDO
GRALHEIRA, A PRINCESA DA SERRA DE MONTEMURO
UMA VIAGEM A OUTRO MUNDO

Da estrada Nacional 321 à Gralheira são 15km. 15km por entre o nada da Serra de Montemuro, que é o tudo para quem lá vive.

As indicações para chegar à Gralheira são poucas. Mas também não há muito por onde enganar. Apenas uma estrada estreita onde dois carros não se podem cruzar. E raramente se cruzam. O mais provável é encontrar um pastor com o seu gado. “Pode passar, as vacas arrumam-se”, diz o pastor. A medo lá vai passando quem não está habituado a dividir as estradas com os animais. Na verdade não se aprende isto nas aulas de condução.

No horizonte não se vê nada, só nevoeiro que pousa entre as eólicas. Não há sinal GPS. Não há rede. Não há ninguém. Apenas uns rebanhos de ovelhas. Estamos entregues a uma seta que indica que é para ali a princesa da Serra de Montemuro, como lhe costumam chamar. É confiar.

Eis que começam a aparecer as primeiras casas. Nota-se que não estão habitadas. Provavelmente são de emigrantes. Mais uns longos metros entre o nada e lá aparece a indicação que ali começa a Gralheira. Estamos no ponto mais alto do distrito de Viseu. A 1200 metros de altitude. [VER FOTOGALERIA]

Chegar ao centro da aldeia é fácil. Mas o perigo de esmurrar um espelho do carro aumenta a cada metro. Em contrapartida, não há mais carros e pode-se estacionar em qualquer sítio.

Desligar o carro. Sair para entrar quase noutro mundo. A princípio há um choque térmico. O nevoeiro ainda não levantou pé e o termómetro assinala dois graus negativos. Não há ninguém na rua. Ouve-se a calma. A água das cascatas a bater nas pedras. O vento a soprar. Uma porta a fechar e um sachola a bater na calçada à portuguesa.

“Eu nasci aqui, fui criado aqui e é aqui que quero morrer”

A sachola que se ouve é de Fernando que vem com a sua esposa, Alzira. Pedimos para falar. “Mas estamos todos sujos, não mostrem o meu marido que está cheio de bosta”, diz Alzira às gargalhadas. 

Alzira e Fernando têm menos de 50 anos e vivem juntos na Gralheira há 24. São quase uns jovens entre os poucos mais de 150 habitantes da aldeia. Todos os dias vão “levar ao monte” as vacas arouquesas que dão, segundo dizem, “a melhor carne que pode haver”.  “Temos um talho, onde temos os produtos da região. E temos uma exploração de gado bobino, as ditas vacas arouquesas e vamos andando assim”, diz Fernando. “Trabalhamos de dia ou de noite, é igual. Ninguém nos manda, ninguém nos estorva. Vamos ao monte, trazemos o gado, fazemos o trabalho em casa em conjunto. É espectacular viver numa aldeia destas”, remata Alzira.

E, nem a crise faz o casal sair da aldeia. “Conseguimos superar a crise apesar das dificuldades... Não há nada por aí além. Mas dá para tudo e vamos tendo os nossos legumes, as carnes, os enchidos e assim”, conta Alzira.  “Eu nasci aqui, fui criado aqui e é aqui que quero morrer”, diz Fernando sem deixar margens para dúvidas.

SONS DA GRALHEIRA

Entre o silêncio ouve-se um buzinar constante. É a carrinha de uma padaria que todos os dias sobe ao ponto mais alto do Montemuro. É a única forma da população comprar pão porque na aldeia só há um mini-mercado, um talho, dois restaurantes e dois cafés que recebem centenas de turistas todos os fins-de-semana. “Às vezes servem mais de 1500 almoços, no Natal e no fim do ano. As gentes daqui estão habituadas a conviver com outras pessoas desde os tempos antigos e recebem bem”, diz Ernesto Silveira, como é conhecido, enquanto passeia pela aldeia.

JÁ NINGUÉM BRINCA NA GRALHEIRA

É uma da tarde. Toca o sino entre o cantar dos pássaros e o ladrar dos cães. Perto do largo da Igreja estão as caixas do correio. São 90. Todas juntas. E todas perto de todas as casas. Ao lado uma pequena “eira”. Com um pequeno brinquedo estragado pelo tempo, sinal da falta de crianças. Segundo a Junta de Freguesia, a Escola Primária da Gralheira tem apenas 3 crianças, mas que no próximo ano serão transferidas para o novo centro escolar.

5 professores para 3 alunos

UMA ALDEIA DE SAUDADE

As baixas temperaturas e a chuva “miudinha” não impedem que Joaquim, Brigida e o “Tio” António passeiem pelas ruas da aldeia que os viu envelhecer. “Vão filmar os dois mancos. E eu ainda vou partir a máquina e não tenho dinheiro para pagar depois”, brinca o “Tio” António, como é conhecido. "O Tio quer é aparecer, ser visto nessas coisas novas", responde Brigida.

O “Tio” António tem 88 anos e diz que hoje vive “mais ou menos bem” porque ele e sua esposa têm uma pequena reforma. Mas recorda, com a lágrima no olho, que nem sempre foi assim. “Eu aos 25 anos fiz o que faz a mocidade. Fui à procura de uma nova vida no Brasil. A vida naquele tempo era muito difícil. Era fome, muita fome. Só se vivia à custa do trabalho, mais nada. Fazia-se só algum tostão no ovo da galinha e no cabrito que se vendia”, conta explicando que só o amor o trouxe de volta à terra.

A emigração deixa aldeias como a Gralheira quase desertas. “Quando os emigrantes voltam, a pessoas aqui quase que triplicam”, diz Acácio Ribeiro ex-presidente da Junta. “Antigamente isto dava mal. Agora também dá mal. E, os novos logo que possam emigrar não ficam cá, isso não”, explica Joaquim.

Nelson Ribeiro: "Sai cada vez sai mais gente daqui"

Nelson Ribeiro, tesoureiro na Junta da União de Freguesias de Alhões, Bustelo Gralheira e Ramires afirma que o principal problema da Gralheira é o êxodo rural e a distância e não o isolamento. "Cada vez sai mais gente, é muito díficil manter as pessoas por cá". 

WI-FI A 1200 METROS DE ALTITUDE

São quase duas da tarde e o tempo parece não passar neste mundo sem rede móvel. Mas com 5 redes de internet wi-fi de acesso livre, disponibilizadas pela Junta de Freguesia. Coisa de fazer inveja a muitas cidades. Marca dos novos tempos que permitem “instagramar” ou “facebookar” para o mundo agitado imagens da calma e tranquilidade.

O silêncio é tal que em qualquer parte da aldeia se ouve a água da fonte, os passos das gentes e as suas conversas. “É muito bom viver aqui, é muito agradável. E graças a Deus, vive-se aqui muito bem”, diz orgulhosa Brigida Ribeiro. Acrescentado, “Sinto-me bem aqui. Gosto de me sentir livre”.

A água dos taques de lavar a roupa está quase congelada. Nem o aparecer do sol faz a temperatura subir. A roupa continua estendida nas cordas entre as casas. Quase que temos de nos baixar para passar. As chaminés continuam a fomegar. O Tio António, a dona Brigidia, o senhor Joaquim, o senhor Ernesto e o casal Fernando e Alzira, continuam  as suas vidas entre a calma da Serra de Montemuro, onde os problemas do resto do mundo parecem não se atrever a entrar.